Depressão: Será um erro de raciocínio?
Posted: 24 Oct 2011 07:39 AM PDT
Uma das mais divulgadas estratégias para lidar com a depressão é o uso da classe de medicamentos conhecidos como SSRIs. Para muitas pessoas, Prozac, Paxil, Zoloft, e fármacos do género têm sido incrivelmente prescritas (não necessariamente eficazes) para lidar com a depressão. Diante disso, eu enquanto psicólogo o que posso ter para dizer sobre a depressão? Digo taxativamente que existem outros recursos e abordagens que podem ser extremamente úteis para lidar e promover a superação da depressão, mesmo que seja em conjunto com o tratamento farmacológico. Em artigos anteriores, levantei a questão se a depressão pode ser considerada uma doença de cariz meramente biológico, abordei também a questão da eficácia ou não dos antidepressivos, e dei a conhecer os benefícios do exercício físico no tratamento da depressão.
ERROS DE RACIOCÍNIO, A BASE DE CONSTRUÇÃO DA TERAPIA PARA A DEPRESSÃO
De acordo com alguns dos pressupostos apresentados nos artigos acima, aponto para a utilidade de um conjunto de estratégias eficazes para o tratamento da depressão, e igualmente um enquadramento da implicação dos vários erros de raciocínio como gatilhos que contribuem para a depressão. E, que a partir da identificação dos erros de raciocínio e consequente reestruturação do pensamento e crenças, a pessoa afetada pela depressão pode aprender a perceber os motivos da sua paralisia da vontade, falta de energia e ausência de prazer na grande maioria das coisas na sua vida. É na verdade, a construção do processo atrás descrito que pode constituir grande parte do programa de tratamento para a depressão, através da abordagem psicológica, fundamentada na terapia cognitiva-comportamental.
Não pretendo passar a mensagem que os erros de raciocínio ou as distorções cognitivas são a causa da depressão, ou que a pessoa deprimida deve ser censurada pela forma como pensa, mas sim que o tipo de pensamento que é característico de alguém que sofre de depressão, às vezes deve-se a um erro de raciocínio. Tal pensamento pode perpetuar a depressão. Na terapia cognitiva-comportamental, a pessoa pode vir a reconhecer esses padrões de pensamento ilógico. Então, através de uma variedade de meios, a pessoa que sofre de depressão pode começar a mudar esses padrões de pensamento desajustado e desadequado. Todos nós podemos cair nesses padrões de pensamento às vezes, mas a pessoa deprimida, passa grande parte do tempo nesse padrão mental e generaliza para quase todas as áreas da sua vida.
Dica técnica: O pensamento da pessoa deprimida emerge do erro de raciocínio. Eu acredito fortemente que uma pessoa para se recuperar totalmente da depressão, terá de enfrentar os processos de pensamento negativo, desajustado e ilógico que foi forjando e interligando à medida que o seu problema foi crescendo. Compreender as falácias (falsas verdades) presentes no pensamento deprimido pode ser útil para a pessoa lidar com a depressão, e igualmente para aqueles que estão a cuidar de uma pessoa que sofre de depressão. E isto é tremendamente esperançador!
QUE TIPO DE PADRÕES DE PENSAMENTO ILÓGICO ESTÃO PRESENTES NO PENSAMENTO DA PESSOA QUE SOFRE DE DEPRESSÃO?
No artigo: Distorções do pensamento, saiba porque causam problemas e como as mudar, apresento resumidamente e de forma generalista alguns dos erros de raciocínio característicos de pessoas que sofrem de problemas psicológicos. A seguir, apresento de forma mais detalhada os padrões de pensamento negativo (erros de raciocínio) que empurram a pessoa para a exacerbação da sua depressão e consequente barreira a uma efetiva recuperação:
Raciocínio emocional: Verifica-se, sempre que acreditamos que os nossos sentimentos negativos sobre algo refletem a realidade, quando na verdade isso não acontece. Por exemplo, quando alguém sente que não tem nada de bom para oferecer às outras pessoas, quando na verdade, de fato não é o caso. Os sentimentos são poderosos, e por isso são importantes, e por vezes podem refletir a realidade. Mas, quando esses sentimentos não refletem a realidade e acreditamos que de alguma forma isso acontece, cometemos a falácia da evidência insuficiente. Essa falácia ocorre quando acreditamos numa determinada conclusão, embora não existam provas suficientes para justificar essa crença.
Tirar conclusões precipitadas: Nesta distorção cognitiva, um indivíduo interpreta negativamente certos fatos, e chegando a uma conclusão negativa injustificada com base nessa interpretação. Existem dois tipos principais desta distorção. A primeira é a leitura da mente, ocorre quando uma pessoa conclui que os outros pensam negativamente sobre ela sem provas suficientes. Um exemplo disso é quando o marido interpreta o comportamento da sua esposa, como ela estando irritada ou decepcionada com base em alguns indícios ténues ou insuficientes. O segundo, é a cartomancia, ocorre quando um indivíduo conclui que as coisas não vão dar certo no futuro, quando as evidências para isso não estão presente ou são inapropriadas. Por exemplo, um estudante prevê que não vai entrar na faculdade porque ele “tem um mau pressentimento” sobre isso. Este tipo de pensamentos “mágicos” podem muitas vezes ser uma forma da falácia de insuficiência de provas, que ocorre quando acreditamos numa determinada conclusão, embora não haja provas suficientes para justificar essa crença.
Ampliação ou Minimização: Aqui, a pessoa é incapaz de ver as coisas de uma perspectiva adequada. Ela pode ampliar os seus próprios contratempos ou falhas, minimizando as suas conquistas. Todos nós podemos emaranhar-nos em tal pensamento, mas a pessoa deprimida exacerba os seus sentimentos de depressão de tal maneira que olha para o mundo de forma distorcida e penalizante. Este tipo de pensamento comete a falácia da premissa inaceitável. A pessoa emaranha-se em tais pensamentos e tira conclusões que não são garantidos pelos fatos. Por exemplo, “Quebrar a minha dieta faz de mim um fracassado”, não é uma crença apoiada por evidências fatuais, mas pode parecer assim para a pessoa deprimida.
Rotulagem: Nessas situações, uma pessoa, atribui erradamente traços negativos para si mesmo através de linguagem emocionalmente carregada e depreciativa. Por exemplo, se a pessoa não conseguiu uma promoção no trabalho, diz a si mesmo: ”Eu sou um perdedor”. Esses rótulos, desadequados também podem ser aplicados a outras áreas. Um homem que tem alguns desentendimentos menores com sua esposa, pode rotular-se como “egoísta” ou algo pior. Tal pensamento comete a falácia da insuficiência de provas, como na grande maioria dos erros de raciocínio, a pessoa está tirando conclusões precipitadas que irão denegrir a sua imagem, destruir a auto estima e minar a auto confiança, e o pior de tudo é que nada é apoiado pelas evidências.
Personalização: Isso ocorre quando a pessoa toma para si mesmo como sendo a causa primária ou exclusiva de algum evento, mas que os fatos apontam como não sendo verdade. Por exemplo: a criança pode estar agindo de forma inadequada na creche ou na escola, e os pais podem ser preenchidos com sentimentos de culpa ou inadequação. Poderia haver uma variedade de razões para tal comportamento e que podia não passar por uma falha dos pais. É importante reconhecer as nossas limitações e até que ponto somos ou não responsáveis pelo comportamento dos outros, até mesmo dos nossos próprios filhos. Quando nós pensamos dessa maneira, podemos estar a cometer a falácia de causa falsa. Isso acontece quando acreditamos que há uma conexão causal entre dois eventos quando nenhuma conexão existe.
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