007: Permissão para ser humano
O título do artigo, poderia muito bem ser um título para um dos filmes de James Bond, mas não é! De qualquer forma, não deixa de ser uma arrojada missão. A missão de a todo o custo, contra tudo e contra todos, tão somente: Ser humano. Na actualidade esta é quase uma missão impossível, num dos lados da moeda temos a competitividade, espetativas elevadas, pressão social, exigências laborais, preocupação extrema, e do outro lado, os amigos entusiastas, as inúmeras terapias, os livros de auto-ajuda, os conselheiros, os gurus, os líderes que nos transmitem as mil e uma formas de como ultrapassar tudo isso e ser-se bem sucedido (umas das coisas que mais faço aqui no blog). Neste contexto paradoxal, fomos ganhando a noção que não podemos ter maus momentos, ou expressar desalento, desmotivação ou desilusão em alguma altura da nossa vida. Nada podia estar mais longe da verdade.
OPINIÕES E AFIRMAÇÕES DESMEDIDAS
Quando estamos tendo uma dificuldade na vida, as pessoas podem responder-nos das seguintes formas:
Estas declarações podem fazer-nos sentir como não estando a trabalhar duro o suficiente, que estamos fazendo algo (ou não estamos fazendo alguma coisa) que está causando a nossa dificuldade. Como psicólogo, e seguidor da psicologia positiva, admito que às vezes posso cair nessa armadilha. E como escritor aqui na Escola Psicologia, certamente pode parecer que faço isso através de títulos de artigos como:
Certamente, não sou o único a abordar estes temas com títulos que saltam à vista oferecendo “soluções” para alguns problemas que nos afetam, assim como outros que incentivam ao desenvolvimento pessoal e à melhoria da motivação. Não quero com isto dizer que estou a menosprezar os meus próprios artigos, ou as pessoas que tentam na sua melhor das intenções ajudarem quem expressa algum mal-estar ou que atravessam uma fase difícil na vida. O que pretendo dizer, é que os problemas devem ser encarados inicialmente com alguma naturalidade e o devido enquadramento, levando em consideração a duração, frequência e intensidade do mal-estar. E, não simplesmente livrar-se dele, como se fosse uma contaminação ou moralmente desaprovado.
Por esse motivo, e apesar de utilizar títulos sugestivos que apontam para a positividade perante situações exigentes e difíceis, e ao mesmo tempo que transmitem esperança na resolução dos problemas, nunca pretendo passar a mensagem que devemos repudiar a tristeza, medo, sentimentos negativos ou estados de humor diminuído. Pelo contrário, devemos sim saber interpretar o que esses estados ou sensações nos transmitem e que por vezes temos que inevitavelmente sentir aquilo que sentimos, sem dramas, miserabilismos ou sentimentos de culpa e incapacidade. Simplesmente sentir, para numa fase posterior e adequadamente mudar de estado, sentimentos ou situação.
ACEITAÇÃO E COMPREENSÃO DA RAZÃO DOS MAUS-MOMENTOS
Nas mensagens e ensinamentos que transmito, procuro sempre expor os assuntos apresentando uma dupla perspetiva. Por um lado, esperança, motivação, convicção, positividade, otimismo e ações face aos objetivos. Por outro lado, que os sentimentos negativos, mal-estar ou problemas pessoais são acontecimentos normais que nos infligem sofrimento, mas que o sofrimento pode ser encarado de forma razoável e sem que necessariamente seja um drama ou trauma. Tal como expresso nos seguintes artigos:
ENFRENTAR PROBLEMAS NÃO É UM DEFEITO PESSOAL
Então, ao invés de eu escrever outro artigo sobre o que você pode fazer de diferente, eu pretendo relembrá-lo de que em determinadas alturas da vida sentir-se mal ou ter pensamentos negativos por curtos períodos, pode não ter mal nenhum. Isso não significa que você está com um “defeito” qualquer, ou problemas psicológicos ou que é menos feliz ou menos bem sucedido que os outros. Recuos, adversidades, obstáculos, erros, fracassos, desilusões e desesperança, certamente em alguma altura da sua vida irá aparecer alguma desta coisas no seu caminho. Tudo isto não são sinais de que necessariamente você seja fraco, incapaz ou um fracassado. Esses sinais só querem dizer que você é humano, assim como todos nós.
Aceitação: Às vezes a vida é um desafio e na maioria das vezes incerta, com muitos acontecimentos fora do nosso controlo. Aceitar este facto pode ajudar a remover o sentimento de culpa, quando estamos tentando superar o que temos entre mãos. Relativizar e perceber que em múltiplas circunstâncias estamos à mercê do universo vasto e misterioso e que a nossa condição humana é susceptível de sofrer consequências exteriormente impostas.
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